Instante
Muitas vezes, assolados pelo peso do passado e pela antecipação daquilo que há de vir — isto é, de uma vida que ainda não se concretizou, mas que se alimenta de ideias, ou melhor, no sentido mais enfático, de possibilidades ainda por exercer — esquecemos que a nossa existência, enquanto ser-no-mundo, se constitui no instante.
Um instante tão finito que escorre por entre as mãos sem que o percebamos. É ele que, de certo modo, torna possível o sonhar, mas que, não raramente, também o subjuga. E então surge a pergunta que reverbera no íntimo de todo ser humano: como aproveitar o instante, o agora, a vida enquanto vida, sem deixar que ela nos escape?
Essa pergunta já revela, em si mesma, uma abertura à possibilidade — um poder-ser. No entanto, o instante raramente é levado às suas últimas consequências, pois é constantemente tensionado pelo horizonte do que ainda não é. Como já indicava Schopenhauer, o sofrimento nasce da objetivação da vontade — e essa objetivação se dá precisamente no instante.
Mas o que é, afinal, essa possibilidade?
É o querer mais.
E, ao querer, busca-se sempre mais querer. O ser humano é, por essência, um ser que deseja sempre além: mesmo quando satisfeito, continua, de forma intensa, a procurar esse “mais” que nunca se esgota e o querer se constituí no instante. Mas podemos ser mais ousados no que tange ao instante: ele não precisa ser compreendido apenas como um lugar no tempo, mas como o âmbito em que o ser se decide. É no instante que o homem assume ou foge de si mesmo.
Como afirma Aristóteles: a angústia se faz presente porque estamos no tempo, atravessados por uma tensão constitutiva. De um lado, o desejo, que sempre quer ir além, que se projeta para o novo; de outro, o intelecto, que, por meio do raciocínio, recolhe-se ao agora, pondera, delimita, dá forma.
O instante é conflito; é o ponto em que essa tensão se torna concreta ou o homem se dispersa no impulso de querer sempre mais, ou se recolhe na lucidez do pensar. Mas, talvez, seja justamente nesse entre — nem pura expansão do desejo, nem puro recolhimento do intelecto — que o ser humano, de fato, se decide.
Talvez, então, o instante não seja algo a ser dominado ou compreendido plenamente, mas sustentado. Pois é nele — e somente nele — que o homem se joga entre aquilo que deseja e aquilo que compreende, entre o que ainda não é e o que ja se mostra. E, nesse jogo silencioso, decide-se, ainda que não perceba, aquilo que ele é.
No fim, não é o tempo que nos escapa — somos nós que escapamos do instante. E, ao fugir dele, fugimos também da única coisa que verdadeiramente está em jogo: nós mesmos.


Por um INSTANTE, achei que você ia falar sobre Kierkegaard ao escrever sobre o instante haha. Texto interessante, mano!